Meninos indígenas atuantes na 8ª Conferência
Eles buscam a observação da diversidade cultural e suas implicações nas diretrizes nacionais
> da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), organização integrante da Rede ANDI Brasil
Entre duas mil pessoas que circulam por debates, painéis, e atividades culturais da 8ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Brasília, estão dois delegados e dois observadores da etnia pataxó. Oriundos do município de Coroa Vermelha (BA) vieram em busca da inserção das questões indígenas nos debates da conferência. Em vestimentas tradicionais, com belos adornos, eles trazem na bagagem as discussões e os objetivos traçados nas etapas regionais da conferência: desmistificação do índio e inserção sociocultural das comunidades tradicionais na sociedade.
Ubiraí, 17, e Taiane, 15, são os únicos delegados indígenas e reclamam da distância não apenas física, mas também simbólica que os separa do restante da sociedade. "O governo não chega até nós, assim como as próprias instituições de direitos. Faltam debates e ações mais próximas das tribos e da realidade cultural das comunidades, o que dificulta nossa participação", comenta Ubiraí.
Taiane conta também dos preconceitos diários que sofre. "As pessoas nos dizem que, se somos índios de verdade, deveríamos estar nus e dançando. Como podemos vestir menos roupa, se já falta respeito antes até de saberem nossos nomes?", indigna-se a jovem pataxó.
Os dois delegados têm participado dos painéis e debates, onde esperam conseguir espaço para abordar assuntos relevantes quanto aos direitos e entendimento dos primeiros habitantes do país no contexto das conquistas e atuais temáticas nacionais. "O Estatuto da Criança e do Adolescente representa um grande ganho, mas há questões que precisam ser mais detalhadas. Primeiramente, as pessoas precisam entender que não existe a definição de adolescente entre os índios, ou se é criança ou se é adulto, denominação que ganhamos quando casamos", explica Taiane.
Ubiraí aponta outra discussão cultural, essa mais polêmica, sobre o trabalho infantil. "A cultura indígena é diferente. Pintamos e fazemos artesanato desde cedo. São fontes de renda, mas também expressão de arte. O trabalho não é propriamente infantil: é familiar. Isso ocorre com os índios, com os quilombolas e outras comunidades tradicionais que precisam ser compreendidas e preservadas", afirma.
Em meio a pausas de pedido para fotos com pessoas que talvez nunca tenham tido contato com índios, os jovens pataxós esperam que o interesse dos participantes da conferência pela cultura indígena ultrapasse o campo estético e que suas opiniões e reivindicações sejam ouvidas e respeitadas. "Além de índios, somos também sujeitos de direitos", finaliza Ubiraí.

